Meu destino desfocado

Meu destino desfocado
América Latina

domingo, 27 de março de 2011

Noite de lua cheia


Dia 26
Sábado
Muita energia positiva

Hoje sim saí de casa com a intenção de conhecer pontos turísticos de Buenos Aires. Peguei o subte até o centro e fui andando até o Obelisco. De lá, desorientada pelo mapa, fui  parar no Teatro Cólon, a casa de Ópera. Apesar dos salgados 60 pesos da entrada guiada, resolvi fazê-la,e valeu muito a pena, é um luxo só.
Almocei numa praça em frente ao Teatro (comprarag uma salada pronta), e depois segui caminhando até a Plaza del Congresso, rodeada por construções antigas e de onde peguei o ônibus 64 pra ir a La Boca.
Desci perto do Caminito e logo vi que aquilo não era pra mim.  A beleza que certamente existira no bairro, hoje é ofuscada pelo excesso de exploração turística. Dançarinos de tango que cobram pra tirar foto com você, ruas amarrotadas de gente e esse tipo de coisa que eu, sinceramente, não aprecio muito.
Parei em frente a um restaurante onde havia um senhor cantando tango e ainda bem que eu estava com óculos escuros, porque além do arrepio ouvindo aquele homem cantar, meus olhos logo marearam e lágrimas começaram a cair de meus olhos.
Dei uma volta pelas ruas, vi (e só vi!) o tipo de artesanato que é feito por ali e logo fui embora.
Com o mapa, então, fui andando de La Boca até San Telmo, um bairro descolado estilo Vila Madalena. Foi uma caminhada de uma hora, e pude caminhar pelas ruas pacatas de um sábado portenho. Chegando a San Telmo visitei o Mercado de San Tellmo, peguei o finalzinho da feira e ande elas ruas do Bairro até dar com o Monumento à Mafalda (fofa), mas não me tardei muito porque já eram quase 8 horas e eu planejara ir a uma festa naquela noite.
Conforme já mencionado, o grupo do Couchsufing de Buenos Aires é  o mais ativo do mundo. Eu entrara no site e vira um post sobre La fiesta de La luna llena, evento que acontece todas luas cheias no jardim do Planetário. A festa é aberta e grátis, e é mais um encontro de tambores do que propriamente uma festa.
Pelo site marcamos de nos encontrar as 11:30 em frente ao Havana da Plaza Italia. Foram mais de 30 Cs e fomos todos caminhando juntos até o Planetário.
A lua aquela noite foi muito esperada pelo tamanho com que iria se apresentar. Eu não notei muita diferença no tamanho, mas pude perceber que ela estava infinitas vezes mais brilhante.
Tambores tocaram sem parar em volta de uma fogueira e pessoas bebiam, dançavam, faziam malabares e conversavam.
Conheci algumas pessoas, e com duas delas fiquei conversando por mais tempo:Luciano, argentino, e Annie, americana residente em Buenos Aires.
Juntos nos afastamos um pouco dos tambores para escutar os gongos chineses que uma mulher levara ao parque. Ao redor dos gongos algumas dezenas de pessoas meditavam ou relaxavam.
Nos sentamos lá em silêncio e só fui embora as 4:30 porque estava muito frio, mas só depois de meditar e passar a deeksha (a mim, e à distância aos presentes).



Primeiro dia em Buenos Aires


Dia18/03/11
Dia 25- Buenos Aires
Sexta-feira

Normalmente não tenho pressa para conhecer as cidades aonde vou, e Buenos Aires não foi diferente.
Acordei, enrolei na cama, li meu livro, atualizei o blog e coloquei roupa pra lavar.
A máquina de lavar roupa foi, a meu ver, uma das invenções mais revolucionárias dos tempos modernos, sobretudo para as mulheres. Não nasci na época em que se lavava roupa no rio, felizmente, e desde sempre contei com a comodidade de ter numa área de serviço na própria casa uma máquina que fazia todo o serviço para mim com o apertar de um botão. Simples assim:
1-      Selecionar as roupas a serem lavadas (essa parte demorei um pouco a aprender, o que, no passado, me rendeu alguns pares de meias rosadas).
2-      Colocá-las na máquina de maneira que esta não fique entupida de roupa
3-      Colocar o sabão em pó no compartimento apropriado
4-      Apertar o botão
5-      Esperar o tempo indicado, retirar a roupa lavada, cheirosa e centrifugada.
Esse tempo já passou.
Utilizar a máquina de lavar de outras pessoas pode não ser tão simples assim. A máquina me foi oferecida, e claro que aceitei.
“Hay que tener um poco de intuición.” Essas foram as palavras de Carlos na noite anterior, ao me oferecer a máquina. Eu logo vi que ia dar merda (com o perdão da palavra, mas “logo vi que não ia dar certo” não teria o mesmo impacto).
Carlos saíra de manhã cedo                pra trabalhar e ao me animar pra pôr a roupa pra lavar eu segui suas instruções a fim de ter êxito na minha empreitada. Não tive.
A máquina de lavar de Carlos devia estar de TPM. Era impossível simplesmente “apertar”o botão, já que o botão era de girar. Aí que entrava a parte da intuição.
“- Tienes que escuchar “tuc” y después “tuc” y ya está.”
Mas não estava porcaria nenhuma. Ouvi un montón de “tucs”e nada.
Como sou uma pessoa de sorte, estava em casa uma das moradoras, Ana, quem, vendo meu insucesso, e tendo já a manha dos “tucs” colocou a bixinha pra funcionar.
Eu não tinha decidido ficar em casa, só sairia para ir ao Banco do Brasil, que em Buenos Aires fecha às 15 horas. Esperei em torno de uma hora e meia e fui tirar a roupa da máquina, para pendurá-la antes de sair. Fui até a cozinha (onde fica a máquina), abri a porta da máquina e...
SHUÁ!
A máquina tinha parado, mas ainda estava com água, e como , tola que sou, assumi que a bendita faria todo o seu trabalho, abri a porta sem hesitar. Consegui fechei a porta a tempo de não inundar o chão da cozinha mas não consegui, de jeito nenhum fazê-la voltar a funcionar.
Já passavam das duas horas e eu tinha que sair. De repente veio todo aquele stress  de planejar o tempo de viagem antes que o banco fechasse, pois era sexta e eu não tinha grana o suficiente para o fim de semana.
Saí e peguei o subte (rrâneo) até a estação Bolívar. Saí na rua e dei de cara com a casa rosada!
“Mira vos...”, pensei. Sem querer vim parar bem na Plaza de Mayo.
Tá, mas não tenho tempo. Tenho que me apressar. Cadê essa rua San Martín? Peraí, pra que lado que é? Esse mapa maldito que não me ajuda nada! Porquediaboseunãonascihomem?
Eu andava de shorts e chinelo no meio do que me pareceu ser o centro financeiro de Bs As. Me Cheguei ao número indicado e não tem nada de slogan do BB. Caramba, cadê? São 5 pras 3. Por que diabos o banco fecha às 3 e não às 4?
Tá. Cheguei na recepção do prédio e o Banco do Brasil era no segundo andar. Mas tinha que fazer o cadastro pra entrar no prédio.
Cheguei no Banco do Brasil às 14:58. Vi um caixa eletrônico disponível. Mas o saque não estava.
Um funcionário do banco me deu um folheto com todas as informações de como fazer o saque. Disse que no banco só se pode fazer movimentações, mas que saques são mesmo nos caixas eletrônicos dos bancos argentinos.
Antes de soltar um “que mierda” para mim mesma, voltei ao caixa do BB e transferi o dinheiro da poupança pra conta corrente. A correria não foi em vão.
Saí do banco e passei num caixa onde só consegui sacar 320 pesos (não sei por que, porque a funcionária disse que eu poderia sacar duas vezes mil pesos por dia (duas vezes porque a cada vez o banco cobra uma taxa de 16 e tantos pesos). Só consegui sacar isso e dei dinheiro de presente ao banco.
Como estava no centro, dei uma caminhada pelas ruas, tirei umas fotos, mas não quis me demorar por dois motivos: estava com dinheiro vivo e a máquina estava com roupa e água parada.
Voltei pra casa e quando Carlos chegou lhe pedi que me ajudasse com a máquina. Num instante colocou a bixinha pra funcionar e eu pendurei minhas roupas debaixo de um céu claro com uma lua aparecida.
Mais tarde naquela noite foram uns amigos de Carlos até em casa e fizemos (sim, eu ajudei) Guacamole e pedimos umas empanadas. 
Luciana(CS), Horácio, Carlos (CS-meu host querido), ? Javier (CS), Diego e Julieta (CS)

Durante a noite percebi que meu espanhol tá bacana, pois além de já ter sonhado em espanhol, consigo também entender (quase sempre) quando se usa algum tipo de ironia ou coisa do tipo.
Nessa noite conversei bastante com pessoas que já estiveram na Patagônia e anotei lugares e dicas que me vão ser muito úteis.

sábado, 19 de março de 2011

hasta luego, Uruguai e hola, boludos!

dia 22
Último dia no Uruguai

Acordei às 9 da manhã ouvindo o barulho do mar e... da chuva! Certamente por praga da minha amada professora de espanhol.
Como chovia consideravalmente, resolvi ficar dentro da tenda lendo meu livro. Aparentemente a praia não era TÃO particular assim, ou foi pura coincidência que ouvi vozes na praia. Claro que meu pensamento automático foi que iam invadir minha tenda e me matar, mas o controle da minha mente fez com que eu distanciasse meus pensamentos de cenas de filmes de terror americanos e simplesmente aceitasse o fato que havia mais gente por ali. As vozes logo desapareceram e, obviamente, ninguém me matou.
Lendo o livro tive vontade de dormir de novo, e assim fiz. Acordei às 11, quando já parara de chover, me levantei e fui caminhando pra granja. Deixei a carpa e o colchão na praia, de acordo com a orientação de Juan, que iria desarmar e levar tudo pra casa quando chegasse do trabalho.
Arrumei minhas coisas, escrevi uma carta de agradecimento acompanhada de uma lata de caramelos ingleses (Não trouxe nada do Brasil), e fui embora.
A maneira mais rápida de ir de Colônia a Buenos Aires é pegando um Buquebus. Um barco (mais navio que barco), com freeshop e lanchonete e cadeiras confortáveis, etc e tal. Me  comportei muito e nem cheguei perto do freeshop e durante os 60 minutos de viagem fiquei escrevendo minhas atualizações no blog.
A visão da capital Argentina a partir do Rio da Prata é linda. O céu estava claro, sem nuvens, e pude ver prédios de alturas que eu não via desde que saíra de São Paulo.
Desci, fui pegar minha bagagem e no terminal mesmo fui trocar meu dinheiro. Troquei os restos de pesos uruguaios que tinha e uma nota de 50 reais que por sorte veio sobrando na minha carteira. No câmbio uma mochileira brasileira puxou papo comigo e fomos juntas até o metrô (ela já conhecia a cidade).
Pegar metrô em uma cidade que não se conhece não é nada fácil. Eu tinha que fazer 3 baldeações até Boedo, onde eu ficaria, e com o Zeca pesadinho, na hora do rush, não foi exatamente um momento agradável da minha viagem.
Mas cheguei!!  Cheguei à 19:30 na casa do Carlos, um colombiano do CS que eu havia conhecido em São Paulo, onde ele viveu por 3 meses. Carlos me recebeu super bem, me apresentou a casa e meu sofá (que é na verdade uma cama na sala).
Tomei um banho de-li-ci-o-so, conheci uma das meninas que mora com ele e conversamos até a hora de sair.
Sim, era dia 17, dia de São Patrício, e Javier, um CS daqui, havia organizado uma festa num bar.

O grupo do CS Buenos Aires é, reza a lenda, o mais ativo do mundo. Isso significa que todos os dias há algo para fazer, sempre tem alguém agitando algo pela cidade.

Carlos me levou pra conhecer Palermo, caminhamos pelas ruas que são uma graça, e fomos ao Vier 4, onde seria a festa.
Conheci as pessoas que Carlos me apresentou, mas não outras. O lugar estava mais para balada, música alta, não tinha muito bomo conversar. Ficamos até pouco depois da uma e voltamos pra casa.
No dia seguinte falamos com Javier e ele disse que só de CS havia 220 e que nem sabe até que horas a festa rolou.

Eu não tenho mais idade pra essas coisas.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Um dia em Colônia do Sacramento

Dia 21
Colônia do Sacramento
pseudoturistando

Pense numa cidade fofa.
Colônia do Sacramento é talvez a cidade mais adorável que eu já conheci.
A cidade, que foi motivo de grandes disputas no passado entre Portugal, Espanha e Argentina, tem um ar colonial super agradável.
Reservei minha quarta feira pra conhecer a cidade (um dia é suficiente para conhecê-la).
Eu tinha um mapa da cidade, mas ignorei-o e me pus a andar pela General Flores. Cheguei até o rio e vi que estava perto de uma área bem turista. Vi uma construção que me chamou a atenção e resolvi entrar: Museu do azulejo (óbvia influencia portuguesa). A pessoa que me atendeu me aconselhou a comprar o ingresso unificado pra 5 museus, que custava 50 pesos uruguaios. Esse ingresso, no entanto, era adquirido no Museu Municipa, localizado a duas quadras de distância. Fui até lá, comprei o ingresso e comecei no Museu Municipal mesmo. O museu tem diversas salas e apresenta desde louça, mobília e vestuário, até ossos de animais encontrados na região. Foi interessante, mas assumo que a vontade de fazer xixi apressou minha saída do museu. Não havia banheiros ali, então tive que sair em busca de um restaurante.
Saí do museu e fui usar o banheiro e almoçar. Pedi uma tortilla de papas com salada mista (nada de carne). O restaurante onde almocei era em plena praça principal. Já eram duas da tarde e enquanto almoçava observavva os transeuntes e as árvores, as ruas de paralelepípedo e os pássaros. Foi um almoço bem agradável.
Segui, entào, para o Museu do Azulejo. Nome bem colocado no singular "Azulejo", já que é super pequenininho e não tem quase nada. São três salinhas com azulejos antigos e nenhuma informação relevante (e tudo em espanhol). Eu me arrependeria de ter ido se tivesse pago um valor apenas para aquele museu específico.
Caminhei mais um pouco e fui ao Museu do Índio. Esse era mais interessante, mas não se sabe muita coisa sobre os índios nativos do uruguai, já que foi um genocídio completo, e hoje você não encontra nenhum traço indígina na população.
Saí do Museu do Índio e prefiri andar pelas ruas de Colônia, cheguei até o mar, me perdi pelas ruas e me encantei pela cidade.
Subi o Farol e pude ter uma vista panorâmica da cidade e de algumas ilhas do Rio da Prata.
Os museus fechavam às 4:30, já eram quatro e tantas e desencanei de ir em outros. Fiquei sentada na Praça escrevendo e atualizando meu blog (adoro redes sem senha!).
Passei no mercado e peguei o  último ônibus a Juan Lacaze, às 18:30. Cheguei à Granja de Juan decidida a fazer pastel. Nunca fizera pastel na minha vida, mas tenho alguma confiança no site Tudogostoso e em mim, assim que comprei os ingredientes necessários e coloquei, literalmente, a mão na massa.
Substituí a aguardente por vinagre (claro que não tirei isso da minha cabeça, mas do site), e deu certo.
Quando Juan chegou do trabalho já estava recheando os pasteis e ele os fritou. Ficaram uma delícia, o que é muito positivo pra minha fama e boa cozinheira (acredite ou não, ela existe no Uruguai).
Por que pastel?
No primeiro dia que eu conversei com o Juan ele me mostrou coisas  que outros viajantes deixaram pra ele. Uma dessas coisas era rapadura, deixada por peruanos, obviamente tinha outro nome, e era diluída na água e feita suco. Uma coisa levou a outra, eu comentei com ele do tradicional pastel com caldo de cana e me propus a fazer.

Enquanto comíamos disse a Juan que pretendia dormir na praia aquela noite. Ele, no primeiro dia, havia dito que tinha feito isso diversas vezes com os cs, e como a noite estava agradável, topou na hora.
Quando falei "dormir na praia" pensei em levar meu saco de dormir e pronto.
Quando vi, estavam em cima da lambreta o Juan, uma barraca, um colchão de casal (colchão mesmo, não inflável), mochila com água, papel higiênico e cobertor.
Nem precisei do meu saco de dormir. Subi na lambreta e fomos até a praia, acompanhados de Bandido (o cachorro). O rapaz montou a barraca e logo foi dormir (trabalhava no dia seguinte).
Eu me deitei fora da barraca, na canga, acompanhada daquele cão carentíssimo, que não me deixava meditar, empurrando minha mão com a cabeça, pedindo carinho.
Fiquei um tempão olhando a lua e algumas estrelas que apareciam, apesar das nuvens, pensando na minha viagem, nas pessoas e em mim mesma.
Entrei na barraca e dormi bem até de manhã.

Bumbum queimado

Dia 20
Granja de Juan Daniel
queimada de sol

Hoje foi um dia inédito.
Acredito que ao longo da minha viagem vou ter a oportunidade de experimentar várias coisas que em São Paulo seria impossível. Hoje foi um dia desses. Não se preocupem, pois não me interesso por nada que faça  mal a minha saúde.
Quer dizer... Mais ou menos.
Acordei às 11, depois de uma noite muito bem dormida numa cama de casal só pra mim, quentinha e cheirosinha.
Ao acordar tomei meu café e conheci o pai e o tio de Juan Daniel, seu Juan Carlos e seu Aldo, que moram em Juan Lacaze (sei, são muitos Juans na história), uma cidade a 15 minutos da fazenda.
Depois de um papo com eles (do qual muita coisa eu não entendi, já que eles falam super rápido, com sotaque do interior), arrumei uma mochila com água, canga e protetor solar, fui de calça e jaqueta pedalando a bicicletinha que estava disponível até chegar na praia.
Nem me dei o trabalho de trocar de roupa.
Batia um vento fresco mas eu sabia que quando chegasse à praia, quase ao meio dia, eu conseguiria tomar um sol e uma cor.
Tomei uma cor demais em um lugar que não via sol  há muuuito tempo.
Conforme mencionado anteriormente, eu estava numa praia particular. Foi Juan mencionar nisso e eu logo pensei: nudismo.
Sinceramente, o único motivo de as pessoas usarem roupas de banho é por causa da sociedade. Claro que isso nos é imposto desde muito cedo, então pensar estar numa praia com outras pessoas sem biquíni deve ser considerado coisa de gente doida.
Pois bem... As regras da sociedade mudam em alguns lugares. Por exemplo, na Alemanha: Eu já havia feito nudismo no Englishcer Garten,  em Munique, numa área reservada para nudistas, claro. Na  época pensei que seria algo interessante, que em Santos eu não poderia fazer, então fiz. E gostei, claro.
Ali na praia do Juan era ainda melhor, porque não tinha absolutamente ninguém, logo, a “sociedade”era eu, e eu queria ficar livre livre. Por isso estendi a canga e deitei com tanta roupa quanto vim ao mundo. Fiquei deitada de bruços, lendo meu guia e preparando um roteiro pra Patagônia. 
Não apareceu ninguém, eu fiquei numa boa e tudo teria sido perfeito não fosse um detalhe: esqueci de passar protetor solar.

Meu bumbum não via sol há muito tempo, então era branquinho branquinho (difícil de acreditar, tendo em vista minha adquirida cor de jambo). Mais tarde senti tudo arder e está até agora da cor do capeta. Mas já passa.
Voltei pra casa quando me deu fome e comi um super sanduíche que Juan tinha preparado pra mim, pra quando eu chegasse na noite anterior. Como eu disse que não tinha muita fome à noite, comemos a sopa e ele disse pra eu comer o sanduba no dia seguinte.
Depois de alimentada me deu um sono e eu dormi até que Juan chegasse do trabalho.
Chegou dizendo que tinha duas surpresas pra mim: uma doce e uma salgada.
A salgada: um peixe típico da região, de uns 3 a 4 quilos
A doce: um pote de 5 litros de sorvete (chocolate, doce de leite e creme de whisky)
As surpresas tiveram origem na conversa da noite anterior. Não imaginava que ele fosse chegar em casa com aquilo tudo, mas enfim... Ele assou o peixe  na fogueira, fizemos um risoto com batata e lentilhas, e de sobremesa tomamos sorvete.
Juan é o tipo de pessoa que faz de tudo para te fazer sentir em casa. É aquela pessoa que fica feliz vendo que você está confortável e bem alimentado- e eu tava os dois. Eu queria retribuir. Sabe aquele ditado : “Gentileza gera gentileza”?  Eu já sabia o que faria no dia seguinte.

Chegada a Colônia e a fazenda


Dia 19 (chegando a Colônia e a fazenda) 
Granja de Juan Daniel, Uruguai
Fugere urbem


Devo assumir que gosto do fato de eu não ter problemas pra dormir.
Entrei no ônibus da empresa Turil a Colônia às 14:30, e antes das 15 dormi. Acordei já na cidade, e só porque o funcionário da empresa gritou o nome de uma das avenidas, aparentemente ponto de descida de muita gente. Desci em Colônia as 16 e pouco e abraçada  pelo Zeca parti em busca de um almuerzo.
Tinha que fazer hora até as 18:30, quando então tomaria um outro ônibus para a granja de Juan Daniel. Andei, algumas quadras até um restaurante que me pareceu agradável. Os preços não eram  os mais baratos, mas tinha uma promoção de chivito, e foi esse mesmo que eu comi. Um chivito, um copo de refrigerante e um sorvete por 189 pesos. Comi bem, mas sobrou muito. O chivito é muito grande, e vem acompanhado de fritas. Comi metade da porção de fritas, dispensei o pão do chivito e comi só a carne e a salada (o refri e o sorvete também consumi).
Passei no  mercado pra comprar  comida pra casa e fui pegar o ônibus.
Juan Daniel é uma das pessoas mais experientes do couchsurfing que conheço. Ele já hospedou centenas de pessoas, e todas lhe deixaram referências super positivas, então nem hesitei em pedir hospedagem a ele.  O fato de ele morar numa fazenda afastada da cidade nem por um segundo me incomodou.
Pedi ao motorista, conforme Juan me havia orientado, que me deixasse na Granja de Juan Daniel. Em pouco mais de meia hora desci em frente a um portão de madeira, de onde se via, ao fundo, uma casa e um estaleiro.
O portão estava com corrente e não havia campainha nem ninguém ao redor. Fiquei olhando pra casa, a casa olhando pra mim, até que ouvi um latido, que torci ser de um cão manso. Continuei no meu lugar até que, poucos minutos depois, ouvi “Juliaaaa”, ao que respondi “Juaaan!”
A cena poderia ter sido de novela mexicana: Juan Daniel celebra a volta de sua amada, Julia Esmeralda. Mas estávamos no Uruguai e meu nome é só Julia, graças a mamãe e papai.
Fui muito bem recebida por Juan e El Bandido (seu cão). Coloquei minhas coisas no  quarto reservado a mim (com cama de casal!) e logo que voltei a cozinha Juan me disse que queria me mostrar a praia. Pegou sua garrafa térmica, seu copo com mate e fomos em sua lambreta  até a praia (de rio).
Eu nunca tinha andado de lambreta na minha vida. Eu morria de medo de andar de moto e coisas do gênero, mas de repente me vi na garupa da lambreta do Juan, passando por meio de vacas leiteiras, rumo à praia. Já passava das 7 da noite e fomos contemplar o pôr do sol numa praia deserta, com acesso apenas das fazendas.
Senti-me bem uruguaia, naquela tranqüilidade, tomando mate e vendo o pôr do sol. Eu estava sentada na areia de lado pro mar. A cidade de Colônia estava atrás de mim.
No meio da nossa conversa Juan disse: “Vira de costas. Tá vendo aquela luz vermelha? É Buenos Aires.”
No horizonte se via uma luz vermelha piscando, e uma grande luminosidade rosada, das luzes da cidade aonde eu iria dali a alguns dias.
Depois de algum tempo conversando e tomando mate, voltamos pra casa debaixo de uma lua crescente que era a única iluminação do campo. Tomei um “banho”, Juan nos fez uma sopa e depois comemos sobremesa (Dulce de leche com galletas y banana), conversando a luz de velas na sala. Fui me deitar cedo porque estava cansada, e Juan tinha que acordar às 6 para ir pro trabalho